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  • Filme angolano de Ery Claver estreia-se no Festival de Locarno
    Estreia-se hoje no Festival de cinema de Locarno o filme angolano "Nossa Senhora da loja do chinês" do realizador Ery Claver. Esta sua primeira longa metragem está em competição na mostra paralela "Cineastas do presente". O palmarés será anunciado neste sábado na cidade suíça. O cineasta angolano Ery Claver de 36 anos afirmou ao nosso correspondente na Suíça, Rui Martins, que esta longa metragem testemunha do engajamento da juventude do seu país em prol de uma mudança.   Fazer um filme feito por uma equipa muito pequena sem financiamento é um filme feito por um colectivo que acredita que para fazer histórias o maior fundo que nós podemos receber é o fundo criativo das pessoas com quem nós estamos propostos a trabalhar. Que é toda a juventude angolana que está disposta a fazer uma nova mudança uma nova geração e um novo tipo de cinema que seja feito por angolanos para angolanos e para o mundo.   Nós estamos no Festival Internacional de Cinema de Locarno com Ery Claver. Que é o cineasta que foi convidado pela mostra “Cineastas do presente” e que apresentou aqui “Nossa Senhora da loja do chinês”. É a primeiro longa metragem de Ery  Claver: um filme poético.  É um dos poucos angolanos que chega ao Festival Internacional de Cinema de Locarno e ele vai-nos contar um pouco como é que fez o filme. Olá, eu sou o Ery Claver, realizador de “Nossa Senhora da Loja do chinês”, venho da parte de um colectivo “Geração 80”. Eu venho pessoalmente de algumas curtas metragens mas eu começámos de facto a nossa carreira cinematográfica com longas mensagens em com o filme “Ar  condicionado” em que eu fui o roteirista e o director de fotografia. O filme foi um filme que estreou bem, estreou em Roterdão, teve alguma visibilidade passámos por alguns festivais, mas não tivemos tanta oportunidade de divulgar o filme presencialmente. Porque apareceu infelizmente, a pandemia do COVID o que nos obrigou a ficar em casa. Nesse tempo, que estaríamos a publicitar o filme “Ar condicionado”, nós parámos e eu comecei a escrever o filme “Nossa Senhora da Loja do Chinês”. Então foi uma premissa muito desafiante, feita pelo meu produtor Jorge Cohen que nós teríamos que fazer o filme em 6 meses. Escrever e realizar o filme em 6 meses que foram os meus primeiros meses de 2020 na pandemia. O processo de escrita do filme foi um pouco doloroso, mas também foi muito fácil porque eu juntei elementos das curtas metragens que eu tinha feito previamente. A ousadia principal foi quando decidi incorporar a narração chinesa no filme e criar esse elemento com a comunidade chinesa. O título do filme “A Nossa Senhora da Loja do chinês” tem alguma conotação com uma influência muito grande que vocês estão tendo em Angola pelos chineses ? No caso ele é o dono da loja, é o comerciante. Quando eu vi você fazendo esse filme com a língua cantonesa, eu imaginei, será que é um presságio do que poderá acontecer no futuro? Muito boa pergunta. Obviamente nós temos notado uma influência chinesa, não só em África, mas também em boa parte do mundo. Mas para nós, particularmente, tem sido com alguma estranheza e familiaridade ao mesmo tempo que temos acompanhado essa influência chinesa. Porque eles estão lá como comerciantes e estão a desenvolver de forma muito forte os seus negócios, mas, ao mesmo tempo, distanciam-se um pouco. O que eles têm apresentado: a sua proposta comercial com elementos ocidentais, no caso da santa. Eu escolhi um elemento que é ocidental que vem da colonização, pelo motivo religioso católico, que é bem reconhecido por nós. Nós temos essa afinidade religiosa, mas eles não têm. Mas eles usam esse elemento no filme para conquistar, de alguma forma, o povo, porque é um elemento que nós conhecemos. Mas, ao mesmo tempo, eles banalizam porque trata-se de uma massificação dessa figura religiosa, que é a santa, para um público ou para população negra. Então nós temos um caso interessante: que é um produto asiático com características ocidentais, mas vendida por uma população negra. Nós, como angolanos, ficamos sempre no caminho de identificação muito confuso. Nós nunca temos a nossa identidade intrínseca muito bem elaborada. Nós tanto estamos com a influência europeia, no caso portuguesa. Mas agora, que já não temos a colonização portuguesa, estamos a sofrer agora uma neo-colonização comercial, que é muito mais branda, mas que também com elementos que não são nossos. Então nós nos sentimos de alguma forma sempre apropriados na nossa própria situação social, no nosso próprio país. Ali você vê a mulher com uma goteira na casa e vem uma outra e lhe diz que com uma reza vai acabar com a goteira. E ela manda embora os responsáveis, as pessoas que realmente o poderiam modificar. Então há essa influência religiosa. Porém no filme eu escutei também falar em evangélicos. Eles também tão chegando lá ? As igrejas evangélicas têm tomado o espaço das igrejas católicas e, se calhar, os chineses não dão conta disso. Que a Igreja Católica já não os alude muito, como proposta de salvação. Já não tem os elementos cativantes que a outrora tinha. Então a própria imagem da santa passa a ser uma imagem meramente comercial. Já não tem o mesmo efeito ! E que para nós é um pouco mais difícil, porque ainda tem um outro elemento que é nós associarmos às nossas superstições. Que isso já é base da nossa cultura que nós temos o hábito de pensar que nada é por acaso. Se alguma coisa acontece, mesmo que seja um infortúnio técnico em casa, se o tecto cai é provindo de alguma força externa. O que nos obriga a procurar uma ajuda, também onírica, que se reflicta com a mesma capacidade de intervenção que o problema exige. Nós temos então a santa introduzida nesse meio de três formas. Tu tens a mãe que está a sofrer luto pela filha num trauma, num litígio com o próprio marido, e que, como conforto, acaba por ser levada a socorrer-se pela santa. Mas ela não sabe muito bem se aquilo realmente irá resultar. É só porque é o último recurso que ela vê. Do outro lado tens um rapaz, que não tem nada a ver com motivo religioso, mas que está à procura do cão. E o levam a acreditar que se calhar na Loja do Chinês tenham sido responsáveis pelo desaparecimento do cão por uma outra superstição. Que nem é superstição que é que os chineses todos comem cães. Foi a probabilidade mais fácil para ele e chega lá e decide vingar-se da forma mais rápida e fácil e foi atingir esse símbolo que é a santa vendida pelo chinês. E, temos, sim, o oportunismo do barbeiro que é o Mapele, que, este sim, acaba por aproveitar por motivos económicos a dor dos outros. E ele pega na santa do chinês e ele próprio decide fazer o seu próprio culto, e daí também lucrar um pouco. E nós ao mesmo tempo temos um prólogo,que faz um “breaking point” no filme. Para mostrar de facto em que nível de sociedade é que estamos a nível político ? Que governantes é que nós temos e como é que eles agem perante à sociedade? No filme eles quase que brincam de poder, num evento de fachada, onde o povo, o povo nem participa. O povo aparece lá como uma fotografia, uma moldura humana de forma fictícia através de roupas vazias. Que, ao mesmo ao mesmo tempo, é um símbolo, para mim, do descaso que eles têm com a própria população. Isso tudo o comerciante chinês observando de cima porque ele é que nos introduz Luanda dessa vez. Nós vemos esse banquete, mas a influência do Partido Comunista ainda é grande ? Como é que vai a democracia e a influência política chinesa e ao mesmo tempo essa comédia que foi esse banquete ? A situação política… para mim nós fizemos uma ficção, mas no filme é uma representação quase documental do que é a situação política. Ela é feita de símbolos vagos, de discursos vagos, de representações vagas: com muitas palavras e não dizem nada. Com muita grandeza, mas não há grandeza nenhuma. Então eu vejo também a Tourada, o próprio sítio onde nós ensinamos o banquete, como uma espécie de simbolismo de Luanda. Tens o lugar de grandeza, mas é inacabado. Um lugar que tentou ser alguma coisa! O que eu acho que foi a nossa proposta para o nosso país. Nós acabámos com o comunismo,  e lançámo-nos para o mercado aberto. O mercado livre, com a promessa dum país rico, com muito petróleo e com a promessa de que talvez agora, sem as correntes do colonialismo, o país fosse, sim, se tornar para todos e com todos. Mas, obviamente não é o que aconteceu: os governantes enriqueceram e o povo foi ficando para trás. Mas as aparências não são o que significam. Da mesma forma que nós temos um comerciante chinês apelando pelo seu negócio, através de uma figura da santa. Eu vejo que quem se deslumbra mais pelo negócio do chinês são os próprios governantes no filme. Porque há um certo conluio. Se calhar não está bem descrito no filme, ou está muito nas entrelinhas, que é a própria elaboração no início do filme, do evento que é financiado pelo chinês. É o próprio evento da tourada. Ele é que promove aquilo. Então eles quase que entregam o país para alguém. E eles quase que festejam e divertem-se. E não têm de se preocupar, nem com a situação religiosa e nem com a situação popular, e fazem parecer que está tudo bem, mas não está.
    8/11/2022
    10:59
  • ONU alerta sobre a progressão do grupo Estado Islâmico nomeadamente em África
    A ONU alertou ontem numa reunião do Conselho de Segurança que apesar de ter sofrido derrotas nomeadamente na Síria e no Iraque, o grupo Estado Islâmico continua a representar uma ameaça à segurança global, as Nações Unidas referindo que Daesh tem vindo a progredir nestes últimos meses em algumas regiões, nomeadamente em África. De acordo com Vladimir Voronkov, responsável do gabinete da ONU de luta contra o terrorismo, que apresentou ontem no Conselho de Segurança o seu mais recente relatório sobre a questão, apesar de no passado mês de Fevereiro, o até então líder da organização Abu Ibrahim al Hashimi al Qurashi, ter sido morto na Síria, e apesar também de vários comandantes do grupo terem sido abatidos ou capturados nestes últimos meses, a organização tem vindo a registar progressos durante o primeiro semestre deste ano. Na óptica do perito da ONU, a “estrutura descentralizada” do grupo terrorista deu-lhe a possibilidade de continuar as suas ofensivas até mesmo em terrenos onde tem perdido força. A título de exemplo, Vladimir Voronkov estima que 6 mil a 10 mil homens continuem mobilizados no Iraque e na Síria. No respeitante ao continente africano, o relatório da ONU dá conta da sua preocupação perante as acções levadas a cabo pelo grupo jihadista no Sahel, em vários estados costeiros do Golfo da Guiné, no Uganda e em Moçambique. Ainda segundo as Nações Unidas, noutro ponto do globo, no Afeganistão, onde os Talibã retomaram o poder há um ano, o Estado Islâmico tem vindo a ganhar influência, à medida que outra organização terrorista poderosa na região, a Al Qaeda, tem vindo a sofrer derrotas, nomeadamente a recente perda do seu líder, assassinado há dias em Cabul, durante uma operação americana. Estes são alguns dos aspectos que a RFI abordou com José Manuel Anes, especialista em terrorismo e segurança ligado à Universidade Lusíada em Lisboa, para quem a cooperação e a troca de informações é essencial na luta contra o grupo Estado Islâmico. RFI: Qual é a força que tem actualmente Daesh em comparação com Al Qaeda no Afeganistão e Paquistão? José Manuel Anes: Claro que o Estado Islâmico é o grande rival da Al Qaeda, rival senão mesmo inimigo. Enquanto a Al Qaeda teve agora essa derrota com o assassinato do seu líder Ayman Al Zawahari em Cabul, a verdade é que o Estado Islâmico não tendo um grande líder com um nome conhecido, tem uma capacidade operacional muito grande. Ali naquela zona do globo, no Afeganistão, no Paquistão, o Estado Islâmico do Khorassan, demonstrou há um ano no aeroporto de Cabul quando estavam imensas pessoas a tentar embarcar em aviões para saírem daquele país, eles cometeram um atentado que matou várias dezenas de civis e 13 soldados norte-americanos. Portanto, o Estado Islâmico, apesar de não ter aquela capacidade que tinha na Síria e no Iraque, ao descentralizar-se, manteve e desenvolveu a sua capacidade operacional em várias partes do globo. RFI: Há uns anos atrás, o grupo Estado Islâmico parecia estar bastante activo na Europa, tendo havido uma série de ataques em várias cidades europeias, nomeadamente em Paris. O Estado Islâmico continua activo ou há acções mais eficazes de luta contra o terrorismo na Europa? José Manuel Anes: As duas coisas. Continua activo, espreita sempre oportunidades. Das últimas vezes que atacou, até foi com arma branca, porque o transporte de armas de fogo ou de explosivos é mais problemático nesta fase em que os serviços de informação e as polícias antiterroristas desenvolveram uma capacidade de observação destes fenómenos, eles preferem atacar com arma branca. Mesmo assim matam. Na catedral de Nice (no dia 29 de Outubro de 2020), foram duas ou três pessoas que mataram. Por um lado, os serviços de informação e a polícia antiterrorista estão a trabalhar cada vez melhor e a permuta de informações entre os diversos países é fundamental mas eles também não têm aquela visibilidade nem o "descaramento" que tinham e que, por exemplo, levou ao atentado do Bataclan em Paris (13 de Novembro de 2015). Portanto, actualmente o Estado Islâmico está mais contido, mas não podemos deitar foguetes. Sempre que têm uma oportunidade, atacam. RFI: No seu mais recente relatório, a ONU diz que, em compensação, no continente africano, o Estado Islâmico tem vindo a progredir nomeadamente em toda a zona do Sahel. A que se deve este fenómeno a seu ver? José Manuel Anes: A verdade é que no Sahel, quem mandava lá sob o ponto de vista do terrorismo, era a AQMI (Al Qaeda do Magrebe Islâmico) que estava no Mali. Mas depois, o Estado Islâmico foi ganhando força progressivamente nessa zona, em todo o Sahel, e agora também tem presença em Moçambique. Aqueles 'Shebabs' de Moçambique não têm nada a ver com os 'Shebabs' da Somália, esses são ligados à Al Qaeda desde sempre. Os 'Shebabs' de Moçambique são um ramo do Estado Islâmico da África Central e que vão para sul e têm uma presença forte, têm feito vários ataques e isto é altamente preocupante. RFI: Precisamente, um dos aspectos apontados nesse relatório da ONU sobre o grupo Estado Islâmico é que deveria haver uma maior cooperação a nível das regiões afectadas por esse fenómeno. Julga que efectivamente este poderá ser o calcanhar de Aquiles? José Manuel Anes: De facto, no começo das acções do grupo Estado Islâmico em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, a verdade que o país teve uma certa reticência em buscar aliados. Agora, tem agora o conjunto de países da SADC, da África do Sul, que estão a trabalhar bem e de alguma maneira já se começam a ver alguns efeitos dessa cooperação. Tem havido alguma reticência por parte da Tanzânia, mas o resto dos países estão a trabalhar bem, a ajudar Moçambique nessa luta antiterrorista que é fundamental. Esperemos que esta cooperação internacional continue porque doutra maneira não conseguimos e corremos o risco de que o Estado Islâmico tenha ali uma zona de influência e de acção que será depois muito mais difícil de neutralizar. RFI: E no caso do Sahel? Há uma série de países que têm conhecido situações de instabilidade política e tem também havido uma série de 'mexidas' no campo da segurança, nomeadamente com a retirada da União Europeia e da França do Mali, e vários questionamentos sobre a estratégia regional de combate ao terrorismo. José Manuel Anes: Pois. A atitude do governo do Mali nos últimos tempos tem sido lamentável. Desde logo, as reticências e mesmo um distanciamento relativamente à acção antiterrorista que a França teve durante muitos anos com a operação Serval, com a operação Barkhane, coisas extremamente importantes e úteis, porque se o terrorismo vingar naquela zona do Sahel, desde o Mali, o Chade, Níger, Burkina Faso, isso vai ser um perigo depois para o norte de África e consequentemente para a Europa. Temos que ser muito sérios e encarar isto como uma grande ameaça. Lamento dizer que o governo do Mali tem sido bastante reticente em relação à cooperação francesa de luta antiterrorista, mas esperemos que eles se compenetrem de que efectivamente se não houver um auxílio dos países ocidentais, nesse caso concreto da França, eles vão ter problemas com Estado Islâmico e com a Al Qaeda também. RFI: A ONU apontou como um dos factores que poderão contribuir para o reforço do grupo Estado Islâmico, nomeadamente no continente africano, as falhas que tem havido a nível de abastecimento de alimentos provocadas pelo conflito na Ucrânia, que potenciariam movimentos de revolta no seio das populações mais expostas. José Manuel Anes: Sem dúvida nenhuma. Eles são hábeis em aproveitar essas crises e o Estado Islâmico tem uma categoria ideológica muito forte, mais forte do que a Al Qaeda. Mas de qualquer modo, aproveita sempre os problemas que existem nas infra-estruturas socioeconómicas, isto é evidente. Agora, mesmo quando o Estado Islâmico quase que desapareceu na Síria e no Iraque, a ideologia continuava a circular na internet e a contaminar as mentes mais frágeis. A verdade é que as infra-estruturas também colocam problemas e isso, o Estado Islâmico é hábil em aproveitar isso. No caso de Cabo Delgado é outro exemplo. Também aproveitam todas as carências, algumas que são provocadas por eles, mas depois naturalmente aparecem como os salvadores. De facto, essa crise de alimentos e todos os problemas que assolam aquelas populações, o Estado Islâmico vem aproveitar. RFI: Há também a questão do financiamento. Como é que até agora não se conseguiu travar a acção desse grupo ao nível do seu 'motor'? José Manuel Anes: O financiamento, eles conseguem através do aproveitamento de matérias-primas locais, eles conseguem arranjar o dinheiro e há sempre alguém dessas correntes extremistas que está pronto a dar dinheiro. Mas a verdade é eles chegam a uma zona e começam a vender os recursos naturais e assim recolhem financiamento para as suas operações terroristas. RFI: De um modo global, quais seriam eventualmente as suas recomendações? José Manuel Anes: De um modo geral, é evidente que nós precisamos de muita cooperação internacional a nível de antiterrorismo. Assim como há países que não têm o mais pequeno problema em colaborar internacionalmente com países mesmo ocidentais na luta antiterrorista, felizmente que há e em África há bastantes, mas há também outros que têm reticências e espero que não se venham a arrepender. Portanto, (as prioridades são) cooperação internacional e permuta de informações entre os serviços de informação dos diversos países são essenciais e unidades de antiterrorismo que existem em África e que têm que ter a sua acção não entravada.
    8/10/2022
    10:47
  • Quénia: "É muito possível que Raila Odinga consiga vencer as presidenciais"
    No Quénia, mais de 22 milhões de eleitores são chamados às urnas, esta terça-feira, para escolher o próximo Presidente da República, deputados e eleitos locais. Na corrida à presidência, estão quatro candidatos, mas só dois estão melhor classificados para vencer este escrutínio, de acordo com as sondagens. O grande vencedor irá suceder a Uhuru Kenyatta no cargo. Prevê-se que as eleições presidenciais deste ano sejam renhidas entre os dois principais candidatos. São eles William Ruto, de 55 anos, ex-ministro da agricultura e actual vice-Presidente e Raila Odinga, um ex-preso político, de 77 anos, veterano da oposição, que se candidata pela quinta vez ao posto e que, desta vez, conta com o apoio do Presidente cessante. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos, o Quénia poderá vir a ter, pela primeira vez na história, uma segunda volta eleitoral. Laura Vasconcelos, Presidente e Fundadora da Associação para a Defesa dos Direitos Humanos, uma ONG portuguesa instalada no Quénia, começou por dizer, em entrevista à RFI, que não tem conhecimento de incidentes nas primeiras horas de votação. RFI: As urnas abriram há já algumas horas. Tem conhecimento de alguns incidentes no decorrer da votação? Laura Vasconcelos: Eu estou aqui em Nairobi, na zona de Nairobi. Até agora, não soube de nenhum incidente especial que tenha acontecido, sinceramente. As coisas estão calmas. RFI: Na corrida à presidência estão quatro candidatos, mas apenas dois, William Ruto e Raila Odinga, dois homens bastante conhecidos dos quenianos, estão melhor classificados para vencer este escrutínio, de acordo com as sondagens. Quem são estes dois candidatos? Laura Vasconcelos: O Raila Odinga está a candidatar-se pela quinta vez. Ele nunca conseguiu ganhar. Desta vez, qual é a diferença? É que como o Uhuru Kenyatta já não pode ser novamente Presidente porque esgotou os anos de presidência, apoiou o Raila Odinga para estas eleições. Portanto, a meu ver, é muito possível que Raila Odinga, desta vez e, finalmente, consiga vencer estas eleições. Vamos ver. RFI: E quanto a William Ruto? Também é um conhecido dos quenianos... Laura Vasconcelos: Sim. William Ruto foi vice-presidente do Uhuru. Desta vez, eu penso que o Ruto terá os seus seguidores, mas não está tão forte como costuma estar. William Ruto, nas eleições de 2007, houve aquela violência pós-eleitoral quando saiu o Presidente Mwai Kibaki e houve as eleições. Ele não ganhou e dizem que foi o principal responsável para aquela violência eleitoral que, depois em 2008, deu azo a mais de 800 mortos e a uma série de vilas/pequenas aldeias pilhadas, mais para a zona de Kisumu e Kisii, não propriamente aqui na zona de Nairobi. Ruto é um homem que tem sempre lutado, que foi vice-presidente do Uhuru, mas, pelo que tenho falado com os quenianos, a confiança que o povo tem nele não é a melhor. Portanto, esperamos que Odinga possa, de facto, ganhar as eleições. Já estou no Quénia há 16 anos e penso que é talvez o melhor candidato, desta vez. Sobre o Odinga, tem 77 anos, e, neste momento, está na fila da frente como candidato, de facto, e é um veterano da política. Desta vez, pela quinta vez, parece que Odinga lidera as intenções de voto. Vamos ver o que é que tudo isto dá.  RFI: Para vencer o escrutínio, é necessário que um dos candidatos tenha mais de 50% dos votos e pelo menos um quarto da votação em 24 dos 47 círculos eleitorais. Acredita numa vitória de um dos candidatos já na primeira volta? Laura Vasconcelos: Tenho a impressão de que vai ser um bocadinho complicado. Talvez seja um bocadinho difícil, mas é possível que o Odinga consiga vencer já. Os quenianos com quem tenho falado, estão todos crentes de que Odinga possa, de facto, desta vez, vencer à primeira volta. Senão, terá de haver uma segunda volta. Aqui põe-se o problema. Se existir uma segunda volta, vamos ver como é que isto corre até lá porque poderão começar a existir algumas insurreições. Eu penso que ele vai vencer à primeira volta, de qualquer modo, as eleições podem ser contestadas, se Odinga não vencer ou se Ruto não vencer. Os seus seguidores podem contestar as eleições e começar a provocar alguns distúrbios. RFI: Considera que há o risco de acontecer uma situação semelhante à de 2017, em que o Supremo Tribunal anulou a vitória de Kenyatta após uma petição de Odinga que alegava “irregularidades e ilegalidades” no processo de contagem dos votos e má gestão por parte da Comissão Eleitoral? Laura Vasconcelos: Não sei se irá até esse ponto, mas é possível. Penso que desta vez, talvez não vá até esse ponto. Vamos ver os resultados. Ainda é preciso tempo para que os resultados saiam e depois vamos ver o que é que vão dizer sobre os resultados, se desconfiam que não são os resultados que deveriam ser e, então aí é que poderá haver problema, mas só nessa altura. Eu estive cá nas eleições de 2017, estive cá nas outras anteriores, eu estive cá nas eleições todas e, de facto, não houve revoltas. Tudo aquilo que aconteceu em 2007-2008 não aconteceu nas últimas eleições. RFI: Em que medida é que a violência étnica é de novo temida neste escrutínio? Laura Vasconcelos: Não me parece que possa haver violência étnica, mas, como lhe digo, só após a contagem dos votos é que poderemos ver como é que isto se vai passar. Eu estou convencida de que vai correr tudo bem. Todos os quenianos com quem eu tenho falado têm afirmado que as eleições deste ano serão, na mesma, calmas. Vamos ver. Só depois da contagem porque depois podem dizer que não acreditam nas contagens e que querem a recontagem. Aí pode começar a haver barulho. Relativamente à violência étnica, não ouvi falar em nada.  RFI: Os eleitores não ficarão desorientados por se tratarem de eleições gerais em que, grosso modo, se elegem todos os órgãos num único dia? A democracia não fica a perder? Laura Vasconcelos: Eu sinceramente não sei se a democracia fica a perder ou não, mas, de facto, concordo consigo. Eles [os eleitores] têm uma folha para as eleições que tem seis pessoas para eleger para estas eleições. É capaz de ser um bocado confuso. Para já, grande parte dos quenianos não tem, enfim, o conhecimento suficiente e pode ficar confuso com o boletim de voto. Vamos esperar que não porque todos eles são precisos para votar, mas é uma possibilidade. RFI: De acordo com o Presidente da Comissão Eleitoral do Quénia, Wafula Chebukati, espera-se uma participação reduzida por parte dos jovens neste escrutínio. Porque é que acha que os jovens não se interessam pelo futuro político do país? Laura Vasconcelos: Eu acho que os jovens estão um bocadinho decepcionados com a política no país e, se calhar, por isso não se interessam pelo futuro, o que eu acho uma pena porque efectivamente deveriam. Eu tenho também jovens no centro de acolhimento, que eu tenho aqui no Quénia - que é o meu trabalho aqui - que já têm 18/20 anos e que me disseram que não iriam votar. RFI: E estão desiludidos em que medida? Laura Vasconcelos: Não acreditam em nada daquilo porque acham que o país vai ficar igual. Mas, também não está igual ao que estava em 2008 porque, de facto, o Presidente Kibaki, que esteve aqui até 2008, iniciou bastantes coisas boas, como os projectos para a construção de estradas e uma série de melhoramentos, que foram depois colocados em prática pelo Uhuru Kenyatta. Eu penso que os jovens começam a ficar decepcionados com a política porque os resultados nunca são aquilo que eles mais gostariam que fossem. RFI: Quais são os principais problemas que assolam o Quénia e que fazem os jovens desacreditar? Laura Vasconcelos: Meu deus... Há tantos problemas aqui. A questão económica, a dívida externa do Quénia é imensa, a subida dos preços incrível... A guerra e a Covid-19 abalaram bastante [o país]. Todas as empresas de exportação de café, de chá e de cereais, por exemplo, cairam muito nos últimos meses e isso provocou este aumento enorme de preços. Até a gasolina está a 170 Shillings, que dá, mais ou menos, 1.60 euros. Eu nunca tinha visto a gasolina tão cara aqui e isso, com certeza, vai ter impacto nos jovens, que agora começam as suas vidas e que têm problemas financeiros.  RFI: O Quénia é a locomotiva económica de toda a África de Leste, com fortes movimentos migratórios para o país. Qual é o estado da economia actualmente? O país vive de safaris e do cultivo de rosas para o mercado europeu. Esta realidade não tem vindo a evoluir? Laura Vasconcelos: Não, precisamente por aquilo que eu lhe disse. Há muitas empresas de exportação de milho, de chá ou de café, que cairam imenso, nos últimos tempos. Os safaris com a Covid-19 também cairam e, portanto, a economia do Quénia está bastante abalada, no entanto, todos nós sabemos que há enormes fortunas aqui no país, a começar pelo Presidente queniano. Existe uma disparidade e desigualdade gigantesca entre as pessoas mais pobres e as mais ricas. Estas pessoas depois, mesmo as dos bairros de lata, começam a ficar descrentes sobre tudo e são pessoas que já têm tantos problemas (para se alimentarem, para colocarem os filhos na escola, para poderem pagar essas coisas todas) que depois acabam por pensar 'porque é que eu vou votar? Isto é sempre a mesma coisa'. Acredito que haja uma abstenção relativamente grande. RFI: O terrorismo também assola o país. O Quénia está cercado por países instáveis, como é o caso da Somália. Qual é o diagnóstico que se pode fazer neste campo? Laura Vasconcelos: Eu penso que, relativamente ao que se passa ao nível do terrorismo, agora tem estado calmo. Eu estive cá em várias alturas em que houve atentados, mas agora tem estado calmo. Que eu saiba, não tem havido atentados. Evidentemente que é um sistema de inquietação para a população, mas, neste momento, sinceramente eu vejo a população calma e vamos esperar que isso continue durante as eleições e que tudo corra bem. O Quénia é um país magnífico e realmente precisa de estabilidade.  RFI: Acredita num futuro risonho para o país? Laura Vasconcelos: Eu tenho de acreditar. Eu tenho aqui "36 filhos" porque são filhos e eu tenho de acreditar porque estas crianças, que hoje em dia já são jovens, já estão a florescer para o futuro. Tenho duas na universidade, tenho já crianças que estão comigo há 15 anos e outras, que já não estão comigo, que já sairam do centro e estão a trabalhar.  Eu tenho de acreditar num futuro risonho porque é um país que merece e, para além disso, há aqui pessoas muito boas e com uma parte intelectual enorme, com um potencial gigantesco, têm é de trabalhar para lutar pelo seu país.
    8/9/2022
    9:58
  • Blinken em África: "O desenvolvimento tem que começar aqui em África" - André Thomashausen
    O chefe da diplomacia americana Antony Blinken encontra-se desde ontem na África do Sul no âmbito de uma digressão que está a efectuar no continente, uma deslocação que o levará amanhã e até quarta-feira para a RDC, antes de viajar para o Ruanda onde permanece entre os dias 10 e 12 de Agosto. Depois de uma primeira digressão efectuada em 2021 pelo Quénia, Nigéria e Senegal, esta segunda deslocação africana de Blinken que tem por objectivo travar a influência russa no continente, abrange o anúncio hoje da nova estratégia americana em África, continente onde segundo dados oficiais, os Estados Unidos investiram através do mecanismo 'Millennium Challenge Account' cerca de 9 biliões de Dólares desde 2004. Esta nova estratégia que pretende insistir mais numa intervenção não-militar está alicerçado num plano detalhando 4 objectivos para os próximos cinco anos, promover sociedades abertas, conseguir dividendos democráticos e de segurança, trabalhar em prol da recuperação pós-pandemia e ainda apoiar a conservação e adaptação do clima bem como uma transição energética justa. Para além desta componente eminentemente diplomático-económica, esta visita não deixará de ter uma dimensão política, quando Antony Blinken se deslocar à RDC e ao Ruanda onde deverá analisar com os seus interlocutores a tensão vigente entre os dois países, numa altura em que a ONU acaba de confirmar o envolvimento das forças ruandesas nas violências cometidas por grupos rebeldes como os M23 no leste da República Democrática do Congo. Estes são alguns dos aspectos abordados em entrevista com André Thomashausen, Professor jubilado de Direito internacional e de Direito constitucional, da Universidade da África do Sul, em Pretória, que começa por evocar o contexto em que Blinken efectua a sua primeira etapa na África do Sul, um dos países do continente que tem mantido uma posição de neutralidade, nomeadamente com a sua abstenção na ONU, aquando da invasão russa da Ucrânia. RFI: Blinken começa a sua digressão pela África do Sul, um dos países que recusou até agora ceder aos ocidentais quanto à sua postura de neutralidade em relação à invasão russa da Ucrânia. André Thomashausen: A África do Sul seguiu o caminho da União Africana porque é essa também a posição oficial da União Africana, de que o continente fica na neutralidade, não se vai identificar nem com uma, nem com outra parte nesse conflito, acredita na mediação e na resolução dos conflitos de maneira pacífica. A África do Sul não vai abandonar essa linha e não vai contrariar a política da União Africana. Mas claro, pelas estatísticas do comércio externo, a África do Sul tem nos Estados Unidos o segundo maior parceiro económico a seguir à China, depois vem a Grã-Bretanha, a Alemanha, depois vêm os outros, a Holanda, a França, etc... Portanto, a economia da África do Sul está bem integrada na economia do Ocidente. RFI: Disse que os Estados Unidos estão entre os principais parceiros económicos da África do Sul, juntamente com a China. África do Sul também faz parte desse bloco que são os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), e a Rússia recentemente apelou o bloco à solidariedade para com a sua política. André Thomashausen: Absolutamente e estão em vias de negociações para aumentar o número de membros dos BRICS. Há pedidos de adesão por parte da Argentina e do Irão, sendo que agora, muito recentemente, depois da cimeira entre o Presidente russo, Putin, e o Presidente turco, Erdogan, também a Turquia está a considerar juntar-se ao bloco BRICS, tornando esse bloco um novo factor nas relações internacionais muito importante. Isto porque já agora representa mais ou menos 60% da população mundial. Com a adesão de outros países vai juntando mais importância, mais representatividade. RFI: Uma espécie de novo bloco dos não-alinhados? André Thomashausen: É o novo bloco dos não-alinhados. É um novo bloco do sul, o bloco da população global que é pobre. Se considerarmos que na Noruega o Produto Interno Bruto anual é de 90.000 Dólares per capita, enquanto na África do Sul está à volta dos 6.600 Dólares, na Rússia é de 12.000, na Turquia 14.000 e na China está à volta dos 12.000, na Índia está à volta dos 3.000, portanto é aquela camada do baixo vencimento, da pobreza do investimento e do atraso no desenvolvimento humano e no desenvolvimento económico. E isso é significante para o Ocidente porque o Ocidente só representa mais ou menos 10% da população mundial, mas concentra em si 50% do Produto Bruto mundial. Assim, temos uma nova dimensão de norte a sul que agora está a cristalizar-se dentro dos BRICS. RFI: Blinken escolheu a África do Sul para anunciar a nova estratégia americana no continente africano. Isto reveste algum significado particular, tendo nomeadamente em conta que vários países africanos estão a hesitar neste momento entre a Rússia e os Estados Unidos? André Thomashausen: Eu acho que em África, crescentemente, as pessoas perceberam que tem que haver uma autonomia, tem que haver uma auto-suficiência, o desenvolvimento tem que começar aqui em África. A queda das exportações alimentares da Ucrânia e da Rússia que estão a provocar crises alimentares em certos países em África que dependiam muito dessas importações, também trouxeram à consciência dessas pessoas de que é uma anomalia um país não conseguir alimentar a sua população e estar dependente das importações de alimentos básicos. Assim, os Estados Unidos, tal como a Rússia, tal como a China, vão continuar a ser bem-vindos. A África prefere que as assistências ao desenvolvimento e agora à transformação energética venham sem condições políticas. Foi sempre esse o obstáculo à relevância das relações dos Estados Unidos aqui em África porque os Estados Unidos sempre insistiram em ligar condicionalismos políticos à ajuda ao desenvolvimento que tem oferecido. RFI: Precisamente, é neste contexto por exemplo, que a Rússia ainda recentemente propôs a Moçambique que possa adquirir o seu combustível e que pague em Rublos, uma possibilidade Moçambique não descarta completamente. Qual é a leitura que se pode fazer disto nesta altura? André Thomashausen: A situação dos combustíveis russos é complicada pelo facto de que em África praticamente não existem refinarias. Aqui na África do Sul, existia uma capacidade mas ela perdeu-se. Hoje meramente uns 15% do consumo são de refinação nacional. A refinaria que existia na Zâmbia deixou de funcionar. Igual situação em muitos outros países africanos. Deste modo, os países africanos dependem da importação de produtos, da gasolina, do gasóleo e dos combustíveis para aviação, já refinados. Aí, a Rússia tem menos a oferecer, a Rússia tem produtos brutos em excesso que pode oferecer a um preço baixo e a Índia está a aproveitar isso, a China também, ambos países que têm poucos recursos petrolíferos nacionais. Mas em África, não nos ajudará ter fornecimento de produtos brutos porque não temos capacidade de refinação. E depois é o preço que também decide, porque é uma questão de mercado. O Rublo é uma moeda muito cara, está sobrevalorizado e isto vai resultar numa comparação de preços com os produtos que estão no mercado, nomeadamente do Qatar, da Arábia Saudita e de muitos outros países. RFI: Nesta visita de Blinken pelo continente africano, estão também incluídas etapas na RDC e no Ruanda, aliados tradicionais dos Estados Unidos, mas que neste momento se opõem no campo militar, nomeadamente devido ao alegado apoio do Ruanda às forças rebeldes dos M23 no leste da RDC. André Thomashausen: Absolutamente e é uma coisa bastante curiosa. O Ruanda é um aliado bastante íntimo dos Estados Unidos desde o começo do regime de Paul Kagame. A RDC, recentemente, com o Presidente Tshisekedi, também está muito fortemente ligada ao apoio americano. Há especulação de que Tshisekedi só conseguiu subir ao poder através da estratégia tácita dos Estados Unidos de aceitar e de legitimar um processo eleitoral que na altura (em 2018) estava completamente viciado, em desafio ao candidato que era apoiado pela União Europeia. Agora, o Blinken poderá tentar mediar os interesses do Ruanda e os interesses da República Democrática do Congo, mas isso -claro- não se faz com duas ou três conversas. Necessita um processo. Necessita credibilidade na mediação e não é a forçar. Os Estados Unidos estão numa fase da sua política externa em que querem forçar os resultados com muita impaciência, usando mesmo a chantagem e isso em África não vai ter resultado algum. RFI: Isto acontece numa altura em que o próprio governo da RDC acaba de expulsar o porta-voz da missão da ONU no país. Equaciona-se a possibilidade de colocar em questão a própria presença dos capacetes azuis no leste da RDC (que tem sido bastante contestada em manifestações populares na região). Julga que isto pode piorar ainda mais? André Thomashausen: Eu penso que estamos globalmente numa fase de fragmentação e de contestação. Possivelmente tem a ver com a experiência das restrições e da repressão durante o período da covid-19. Em todas as partes do mundo, há um elevado nível de conflitualidade e estamos a ver isso também em África. No Congo, em relação especificamente às Nações Unidas, esta missão fracassou e ficou viciada pelas práticas corruptas, pela má conduta do pessoal das Nações Unidas estacionado no Congo, estacionado demasiado tempo (desde 1999). Quando esses contingentes ficam num país durante anos, evidentemente que aparecem redes de tráfico de menores, de tráfico de droga, tráfico de munições e de armas e -claro- de ouro e de pedras preciosas. O Congo está um pouco cansado dessa presença externa e considerar que já não é necessária porque as suas próprias forças de defesa e segurança foram bastante bem reconstituídas e houve novas formações e um novo profissionalismo. A África do Sul que também mantinha lá dois batalhões, já começou a retirada desses batalhões que aliás foram parcialmente transferidos para o norte de Moçambique. É bom que os estados consigam reforçar as suas próprias capacidades e é bom que as Nações Unidas tomem consciência de que não estão a escapar à vaga de corrupção e de má governação que está a afectar praticamente o mundo inteiro.
    8/8/2022
    10:49
  • Filme português 'Nação Valente' sobre a descolonização no festival de Locarno
    Desde esta quarta-feira e até 13 de Agosto decorre a 75a edição do festival internacional de cinema de Locarno, na Suíça, cujo programa inclui filmes de realizadores portugueses. Nesta sexta-feira estreia no âmbito do festival "Nação valente", filme do realizador luso-angolano Carlos Conceição. Esta que é a segunda longa-metragem do cineasta, trata do fim da presença portuguesa em Angola e ao abordar os confrontos com os nacionalistas angolanos, dá também espaço para um drama, com uma jovem angolana a descobrir o amor e a morte com um soldado português. Reflexão sobre a história, o colonialismo e a guerra, com este filme, Carlos Conceição pretende igualmente dizer que as ideias subjacentes ao colonialismo continuam bem presentes nos dias de hoje, designadamente através das discriminações em função do género, da cor da pele, da instrução, ou da sexualidade. O cineasta lança deste modo um olhar sobre a natureza cíclica do fascismo e como continua a ser uma ameaça. RFI: O seu filme é uma parábola. Fale-nos do seu filme. Carlos Conceição: Antes de mais, creio que sim, o filme é uma parábola e penso que é uma parábola sobre o presente que usa o passado como instrumento para convidar o espectador a reflectir sobre se as ideias de que gostamos de pensar que são ultrapassadas, estarão realmente ultrapassadas. Temos no mundo inteiro uma espécie de ressurgimento cíclico de ideias velhas que provavelmente não são constantes, não são as mesmas, mas que são sempre contraproducentes, sempre contra-revolucionárias, são sempre contra-evolutivas. No entanto, elas aparecem outra vez e a minha principal ambição com este filme é de convidar o espectador a pensar nessas questões à luz do presente quando toda a gente que essas ideias já não fazem parte do nosso dia-a-dia. Até que ponto é que elas ainda são aceitáveis no contexto do presente. RFI: Uma constante são as guerras. Carlos Conceição: As guerras parecem ser sempre uma consequência e acabam depois por ser a causa de novos pensamentos, mas as consequências das ideias antigas e dessa constante batalha de ideologias que parece que comanda toda a existência das pessoas infelizmente. RFI: Aqui já chegou a fama de que Carlos Conceição está a criar o Novo Cinema português. É um grupo de que faz parte? Carlos Conceição: Esta é a primeira vez que estou a ouvir esta narrativa. Sobre o facto de haver um grupo, não sei. Sinto que na verdade o cinema português está bastante fracturado e bastante individualizado. Na verdade há tudo menos um sentimento geracional, um sentimento de grupo. Não existe um sistema de companheirismo nem de parcerias como por exemplo o que caracterizou a 'Nouvelle Vague', ou o 'Cinema Novo' brasileiro ou mesmo algumas fases do cinema português, eu penso que neste momento -e sobretudo depois da pandemia- parece existir muito uma espécie de um cinema introspectivo, diria quase egoísta e que não é igual de filme para filme. Não partilha tanto parentesco. Mas é bom ouvir dizer que fora de Portugal existe essa impressão. RFI: Sai do ano de 1974 e de repente, nós estamos no ano de 2022. Como é que fez essa transposição? Carlos Conceição: Eu penso que há uma transição no filme, uma provocação histórico-temporal que serve justamente para convidar o espectador contemporâneo a questionar se as ideias velhas do passado estarão realmente erradicadas no presente. Esse é todo o motor do filme. Quando nos habituamos a ver uma narrativa à luz de uma determinada época. Nós sabemos que estamos a ver uma história que se passa em Angola em 1974. Portanto, há muitos pensamentos que não questionamos porque sabemos que pertencem ao passado. Mas será que queremos assumir que ainda pertencem ao presente? é isso que quero que o meu filme faça. Porque é verdade que essas ideias não estão ultrapassadas. Matam pessoas. Essas ideias antigas e discriminatórias da ditadura, do passado, do fascismo ainda matam pessoas hoje. Muitas vezes se diz que é preciso seguir em frente, virar a página, não falar do que está para trás, não perpetuar estas narrativas. Eu acho o oposto. Precisamos de perceber porquê que essas ideias ainda existem hoje e qual é o tempo de antena que elas têm, para prevalecer. RFI: O seu filme levanta questões sobre a direita-esquerda e o fim do colonialismo. Sente que poderia ser alvo de críticas por isto? Carlos Conceição: Eu senti isso todos os dias da minha vida desde que nasci. Sinto isto muito vivo no discurso da direita. Sinto que não houve uma descolonização completa da cabeça das pessoas e creio que a descolonização era obrigatória no momento em que aconteceu, como continua a ser. O que me impressiona é que a descolonização não tenha sido completa, não tenha sido absoluta, que haja pessoas que ainda preservam essas ideias e que defendam o tempo antigo, que defendam extremismos de nacionalismos, ideias de extrema-direita, que na maioria das vezes envolvem discriminação baseada em género, em cor da pele, em instrução, na orientação sexual, uma porção de coisas de que as gerações mais novas já estão fora. Já têm uma abordagem muito diferente e uma frescura muito maior de visão dessas ideias. Mas ao mesmo tempo, começam ultimamente a surgir tabus em relação a certos assuntos que são uma espécie de contra-reacção. Essas micro colonizações que existem culturalmente, hoje em dia já não se trata de ocupar ilegalmente o território de outras pessoas, apenas trata-se também de ocupar as mentes das pessoas com tabus, com ideias morais novas, novas abordagens talvez sobre produtos industriais, o materialismo, tudo isto é uma espécie de colonialismo. Eu penso que temos de estar sempre alertas. RFI: No seu filme, aparece uma mulher, uma prostituta, Apolónia, fale-nos dessa personagem. Carlos Conceição: O que eu queria fazer era uma personagem quase de tragédia grega, uma personagem épica. Na tragédia grega, essas protagonistas como Electra, são figuras que trazem transcendência, que trazem transformação, que muitas vezes são eticamente ambíguas e são elas que são responsáveis pela iluminação de uma ideia, pelo esclarecimento de um problema. O que eu queria com esta personagem é que fosse uma mulher capaz de um pragmatismo muito palpável, muito concreto e que fosse tudo menos uma santa, que fosse uma mulher de carne e osso, uma mulher falível, uma mulher com as suas amarguras, as suas perdas e que fosse ela que trouxesse finalmente a verdade e a luz. Apolónia pareceu-me um nome apropriado porque, não tenho a certeza de conhecer toda a etimologia da palavra nem do nome, mas sei que Apolónia foi uma mártir cristã que foi torturada e que ficou sem dentes e, por isso mesmo, ela é a santa padroeira dos dentistas. Sendo uma mulher melancólica, no filme ela é também aquela que é capaz de ser embaixadora do sorriso e de trazer essa luz.
    8/5/2022
    11:24

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