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  • Jornalista brasileira lança livro após atuar em missões humanitárias em 25 países
    Atualmente, existem 44 crises humanitárias de alta severidade ou graves acontecendo no mundo, de acordo com a Acaps, entidade de análise independente sobre o assunto. Dentre todas elas, a jornalista Fernanda Baumhardt atuou no terreno ou dando apoio em pelo menos 12 situações críticas, em dezenas de países. Em entrevista à RFI Brasil, ela conta a sua jornada humanitária para amplificar vozes, dar visibilidade e empoderar comunidades, que resultou em uma transformação pessoal. “Crises humanitárias de uma proporção severa ou altamente severa acontecem quando a crise, conflito ou desastre natural - como terremoto, inundação ou furacão - causam impactos que ultrapassam a capacidade do país de responder. Então, o país pode enviar um comunicado, um pedido às Nações Unidas, para irmos ajudá-los”, explica Fernanda. Com mestrado em Gestão Ambiental pela Universidade Livre de Amsterdam, a comunicadora gaúcha iniciou sua carreira profissional na área de publicidade, em cargos executivos nos canais Bloomberg e CNN. Porém, nos últimos 15 anos, Fernanda se dedicou ao trabalho humanitário em comunidades devastadas por desastres ambientais, em campos de refugiados ou deslocados, em países como Sudão do Sul, Uganda e Haiti. No currículo, ela acumula passagens por 25 países e quase 40 missões para organizações como a ONU, a Cruz Vermelha e o Conselho Norueguês para Refugiados (NRC) “Todas me marcaram profundamente e me transformaram, como o campo de refugiados sírios, na Jordânia, próximo à fronteira da Síria, que me impressionou bastante por ser um lugar que não tem verde”, conta. “Então, além de todas as circunstâncias difíceis, de terem de se deslocar de maneira forçada, essas 30.000 pessoas têm de começar uma vida num lugar extremamente duro, no sentido mais amplo da palavra”, completa. Vídeo participativo Referência internacional na temática de Participação Comunitária em respostas humanitárias, Fernanda dá aulas e treinamentos no mundo inteiro, sendo considerada uma das 25 maiores especialistas em vídeo participativo, tendo trabalhado diretamente com centenas de comunidades afetadas por desastres. Nos últimos quatro anos, ela acompanhou de perto a crise dos migrantes e refugiados da Venezuela, nas fronteiras do país com o Brasil e a Colômbia. “Com esses diferentes pontos de vista, o que eu mais vi foi a fome”, destaca. No momento em que o Brasil aparece no noticiário internacional por causa da situação precária dos indígenas Yanomamis, Fernanda acredita que o país tem recursos para lidar com essa emergência. “O Brasil é um país que tem condições de ajudar as suas populações indígenas, independentemente de serem remotas ou não. Eu tenho certeza de que é uma questão de planejamento. Quem sabe esse fato possa estimular uma revisão de políticas, desde atendimento médico, alimentação e educação”, acredita.   Com câmeras e microfones na bagagem, muitas vezes Fernanda entra em lugares de onde a maioria quer sair. Uma escolha pessoal que a levou a uma migração de carreira muito intensa. Em 2007, ela pediu demissão de seu posto mais alto, na CNN, em Los Angeles, para trabalhar em prol do planeta. “Eu fui mais uma dessas pessoas que fazem as suas reflexões: a gente está mudando o mundo, a gente está influenciando um mundo melhor?”, pergunta. “Eu entrei nesse questionamento e resolvi sair de uma grande organização de mídia para ir para o terreno, quando eu fui para Malawi, com a Cruz Vermelha, pela primeira vez”, lembra. Vozes à Flor da Pele Desde então, ela nunca mais parou de ouvir as comunidades mais necessitadas do globo. Agora, a jornalista resolveu contar essa experiência em um livro com o título de “Vozes à Flor da Pele”, ainda sem data de lançamento. Em ritmo de aventura, ela relata os bastidores do mundo humanitário, um setor, em geral, distante e romantizado no imaginário das pessoas. “Esse projeto nasceu de uma necessidade de dividir um pouco essa inspiração toda que eu recebi, ao longo de 15 anos, que é a jornada que eu escrevi e a humanidade que eu encontrei em lugares como Afeganistão, Sudão do Sul, Madagascar, encontrando com mulheres que foram vítimas de tráfico humano, entre outras tantas situações”, explica a autora. Em sua constante batalha para abrir espaço para as vozes das comunidades, para que sejam ouvidas e recebam as respostas adequadas, Fernanda Baumhardt é considerada uma humanitária inovadora, que corre riscos e quebra regras para escutar e apoiar os mais necessitados. “Não dava para ficar tudo aqui dentro. Não só as vozes das pessoas em necessidade nessas crises humanitárias, mas, também, as minhas vozes, que mudam a partir desses encontros”, diz. “Então, é um livro que fala dos meus desafios, das minhas dificuldades em equilibrar casamento – no meu caso, eu já estou no segundo, pois o primeiro terminou por causa do meu trabalho humanitário”, conta. “E eu acho que isso tudo pode inspirar mulheres que têm a comunicação na veia e precisam equilibrar tantos papéis”, resume. Ao mesclar a narrativa de suas missões à sua vida pessoal, a autora inaugura, talvez, um novo gênero literário: o Romance Humanitário. Fernanda se interessa, especialmente, pela situação das mulheres no mundo. Ela esteve no Afeganistão pré-Talibã e comenta a realidade que encontrou. “Há normas tribais que não enxergam uma sociedade igualitária. E nós mulheres, nesse caso, estamos sendo prejudicadas. Mas existem também outras minorias. Nós não podemos esquecer das pessoas com necessidades especiais, por exemplo, que também ficam sempre por último”, cita. Quanto ao futuro, ela descreve uma situação de muitas mudanças e necessidade de adaptação. Considerando previsões técnicas, Fernanda alerta para o problema dos refugiados climáticos. “As mudanças climáticas estão gerando um novo tipo de deslocamento forçado e já há um nome técnico para isso: refugiados climáticos. Porque quando têm seca, por exemplo, os povos migram atrás de água e isso gera, potencialmente, conflitos. Então, realmente nós vamos ter muito trabalho”, conclui.
    2/3/2023
    5:58
  • “Estou em Paris para falar que o cinema brasileiro resistiu”, diz cineasta Marcelo Gomes
    O diretor Marcelo Gomes, um dos expoentes do cinema brasileiro atual, está em Paris para ministrar nesta quinta-feira (2) uma masterclass na Universidade Sorbonne sobre sua carreira e obra. Ele também participa do festival de cinema “Regards Satellites” de Saint-Denis, na periferia parisiense. “É com muita felicidade que eu estou aqui em Paris, principalmente para falar que o cinema brasileiro resistiu a esses quatro anos (do governo Bolsonaro)”, disse o cineasta pernambucano à RFI. Marcelo Gomes assina longas de sucesso de crítica e de público como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005; “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de 2009, em parceria com Karim Aïnouz; “O Homem das multidões”, de 2013; ou “Joaquim”, de 2017. Seus dois últimos filmes, o documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (2019) e a ficção “Paloma” (2022), integram a programação do Festival “Regards Satellites” e serão exibidos nesta sexta-feira (3). Antes, Marcelo Gomes fala nesta quinta-feira para os alunos do Centro de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos da prestigiosa Universidade Sorbonne, a convite do professor Alberto Silva. “Acho que é um momento muito importante para divulgar o nosso cinema brasileiro, que resistiu apesar desses últimos quatro anos. E fiquei também muito feliz de apresentar essa masterclass num país como a França, que tem uma relação histórica com o cinema tão importante”, comenta. O tema da masterclass “um percurso cinematográfico em torno do espaço, do tempo e do gênero” poderia ser, segundo ele, um bom resumo de sua obra. “Na verdade, eu faço o cinema de personagens. (...) E esse personagem ocupa um espaço, um tempo e é construído esteticamente a partir de um gênero”, explica o cineasta detalhando que o gênero que desenvolve é “extremamente naturalista, realista, documental, onde eu misturo esses dois elementos”. Críticas ao capitalismo Com algumas exceções, o espaço retratado no cinema de Marcelo Gomes é quase sempre o agreste de Pernambuco, território da infância do cineasta, que nasceu no Recife, mas tem família na região. É no agreste pernambucano que fica Toritama, a “cidade do jeans” onde foi filmado o documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”. O longa, selecionado para o festival de Saint-Denis, denuncia o capitalismo neoliberal.   Na cidade, quase todos os moradores trabalham em condições precárias que lembram “a Inglaterra do século XVIII” fabricando jeans, conta Gomes. O cineasta salienta que “pouco a pouco, foi entendendo que Toritama não tinha nada a ver com o passado. Toritama tinha a ver com o futuro, com essa falácia neoliberal que somos todos autônomos”. “Paloma”, o segundo longa do diretor que será exibido no “Regards Satellites”, é seu projeto mais recente. O filme, vencedor do Festival do Rio 2022, chegou aos cinemas brasileiros no ano passado e denuncia a violência contra a comunidade LGBTQIA+. O longa, baseado em um fato real, conta a história de uma mulher trans, agricultora, que sonha em se casar na igreja com o companheiro. O diretor ressalta que foi muito importante fazer e lançar o filme nesse momento. “Pela vigésima vez esse ano, o Brasil bateu o recorde de o país que mais se mata pessoas da população LGBT. Isso é terrível!” Novo filme Apesar dos recuos e limitações de editais durante o governo Bolsonaro que inibiram a produção cinematográfica brasileira, Marcelo Gomes conseguiu continuar produzindo seus filmes. Ele já prepara seu novo longa, “Relato de um Certo Oriente”, baseado no livro de Milton Hatoum. “Não vai ser fácil, basta ver o que aconteceu no dia 8 de janeiro. (...) Mas espero que o sol volte a brilhar no Brasil depois desses momentos de trevas que a gente teve. O Brasil sempre foi um país muito hospitaleiro, do riso, da convivência pacífica. E nesses últimos quatro anos a gente viu experiências de ódio, de irritabilidade, de desrespeito, que não tem nada a ver com a nossa essência cultural, que foi um país sempre aberto a várias culturas do mundo inteiro. Eu espero que isso volte. Isso é fundamental.” Clique na foto principal para assistir à entrevista na íntegra
    2/2/2023
    10:39
  • Marca brasileira tenta se impor na terra dos perfumes e conquistar mercado europeu
    A marca de perfumaria brasileira Granado abriu um novo espaço de vendas em Paris, ampliando seu processo de internacionalização iniciado há uma década. Investindo na onda retrô graças a seus 150 anos de existência, a empresa aposta que parte de seu crescimento a curto e médio prazo pode vir da clientela fora do Brasil. “Ainda não chegamos nos números da LVMH, mas para a gente 2022 foi um ano muito bom”, compara Sissi Freeman, diretora de marketing e venda da Granado, fazendo alusão ao grupo francês, líder mundial da indústria do luxo, que acaba de divulgar resultados recordes (quase € 80 bilhões de faturamento), apesar da crise econômica atravessada por vários países. “Crescemos quase 25% e alcançamos uma receita de quase R$ 1 bilhão. E para esse ano, acreditamos muito em um crescimento acima de dois dígitos”, celebra. A executiva estava de passagem por Paris para a inauguração na Galeries Lafayette da Champs-Élysées de um pop-up store, termo usado para definir um espaço de venda temporário. A escolha da loja de departamentos na avenida mais famosa da capital francesa se inscreve na continuidade da estratégia de internacionalização da marca, que já tem outros pontos de venda em Paris, mas também na Liberty’s, em Londres, e em Lisboa. Mas a capital francesa tem um gostinho especial para a Granado. Afinal, além de ser a terra dos perfumes, foi em Paris que a trajetória internacional da marca começou, há dez anos, ao ser convidada pelo Bon Marché, uma das lojas de departamentos mais sofisticadas da cidade, para participar de uma operação de divulgação de produtos brasileiros. “Paris acabou sendo a nossa base”, explica Freeman, que lembra da “história de amor” dos franceses pelo Brasil. “Um dos nossos perfumes se chama Époque Tropical e é inspirado nessa influência francesa no Rio de Janeiro”, comenta, falando de um dos produtos mais vendidos da marca. No entanto, ela admite que “a participação internacional [no faturamento] ainda é muito pequena”, em partes por causa da pandemia de Covid-19. “Mas é de onde, para os próximos cinco anos, a gente vê grande parte do nosso crescimento vindo”, prevê. Prova dessa aposta, a empresa fez mudanças em seus centros de distribuição e suas fábricas “para poder sustentar esse crescimento de volume” no exterior. A diretora de marketing não esconde que o discurso “natural” da Granado contribui para sua implementação no exterior. “Cada vez mais o consumidor está consciente, buscando marcas que têm os mesmos valores que eles. E a Granado tem isso enraizado desde sua fundação, em 1870”, diz, lembrando que o criador da marca já catalogava e estudava as plantas que fariam parte de suas receitas. “Isso acaba sendo um grande diferencial”, afirma. Sem esquecer a dimensão histórica, com o look retrô das lojas que instala pelo mundo afora. “Poucas marcas têm 150 anos. Poucas alcançaram esse marco”, se orgulha.
    1/30/2023
    8:17
  • Antologia “Poesia intratável” revela produção poética contemporânea brasileira na França
    “Poésie intraitable” (Poesia intratável): este é o título da nova antologia da poesia contemporânea brasileira, que acaba de ser publicada na França pela editora Les Presses du Réel/Al Dante poesia, dirigida por Laurent Cauwet. A obra, bilingue, é organizada pela experiente Inês Oseki-Dépré, que também assina o prefácio e a tradução de todos os poemas que integram a seleção. A antologia de poesia contemporânea apresenta ao público francês 33 poetas brasileiros, de várias regiões do Brasil, dos mais emblemáticos aos mais jovens, de João Cabral de Melo Neto a Lorena Martins, passando pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Paulo Leminski ou Arnaldo Antunes. O título intrigante de “Poesia intratável” foi a alternativa encontrada para passar ao leitor francês a ideia de “Poesia/risco”, que também indica o rabisco, de Augusto de Campos. “Nós procuramos uma palavra que tivesse o sentido de arriscar e, ao mesmo tempo, um traço. (...) ‘Poésie intraitable’ porque tem também o traço (trait em francês), o rabisco”, explica a tradutora. Inês Oseki-Dépré incluiu em sua seleção vários poetas que já morreram porque considera “que a poesia contemporânea não é necessariamente a poesia de poeta vivo”. Ela ressalta que esses autores, que já faleceram há muito tempo como João Cabral, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Paulo Leminski, “servem de referência, continuam sendo um modelo ou um antimodelo para os poetas que vêm a seguir”. Grande presença de mulheres A presença de poetas mulheres, principalmente mais jovens, é marcante na antologia, mas a paridade ainda não é total. A pouca visibilidade das mulheres na história da poesia influencia a produção das poetas atuais, acredita Inês Oseki-Dépré. “O poeta homem existe desde muito tempo, e eles constituíram uma espécie de memória, de reserva masculina, e, em geral, o poeta se refere a formas que foram trabalhadas por outros homens. As mulheres não têm essa memória”, analisa. A falta desse paradigma torna a escrita poética feminina “muito livre. Eu chamei de poesia performativa, quer dizer, uma poesia do real, uma poesia imediata”, descreve. Uma característica comum a todos os poetas e poemas que integram a seleção seria a “poesia crítica, de resistência”. A tradutora lembra que começou a trabalhar nessa antologia em um momento crítico para o Brasil, depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Eu achei que a gente podia identificar a atitude deles como uma espécie de resistência, que não se manifesta na temática ou nas escolhas. É uma poesia de vamos continuar. Eu achei que devia fazer aparecer essas pessoas que continuam escrevendo, que continuam acreditando na poesia e na arte. E esse é o traço comum dessa antologia”, aponta Inês Oseki-Dépré. A organizadora tentou “dar um panorama diferente do que se faz no Brasil em matéria de resistência à letargia, à morosidade ou ao desânimo. E em matéria de voz. Há muito muitos poetas que são promissores. É uma tentativa de dar apoio a poetas menos conhecidos para que eles continuem”. Duas poetas que integram a antologia serão em breve publicadas na França: Patricia Lavelle e Angélica Freitas que terão seus livros lançados em junho, pela mesma editora, Les Presse du Réel/Al Dante. Como traduzir coisas intraduzíveis? Inês Oseki-Dépré, nasceu em São Paulo e vive na França desde 1966. Ela foi professora da Universidade de Aix-en-Provence e, há anos, promove a literatura, e principalmente a poesia, brasileira e portuguesa. Ela assina várias traduções importantes de autores de referência como Fernando Pessoa, Lygia Fagundes Telles e Haroldo de Campos. Em 1999, ela recebeu o importante prêmio Roger Caillois pela tadução da obra “Galáxias” do poeta concretista. Mas fez várias traduções também do francês para o português, começando por “Escritos” de Jacques Lacan. “Quer dizer, eu comecei já com coisas difíceis”, salienta. Ao ser questionada sobre seu método de tradução, ela responde com uma pergunta: “Como traduzir coisas intraduzíveis? Você tem que inventar o método, a maneira, tem de ficar muito próxima do texto. O Haroldo (de Campos) chama isso de isomórfico.” E quando não dá para traduzir, como na obra de Guimarães Rosa repleta de “brasileirismo, você tem que inventar”, explica. O objetivo é dar ao leitor, no caso francês, o mesmo prazer de leitura no texto original e para isso Inês Oseki-Dépré tenta entrar na cabeça do autor. “A minha ideia era sempre querer tentar adivinhar o que o autor quis fazer, me colocar na cabeça dele, fazer uma espécie de imitação de como ele quis fazer. Assim, o método mimético que consiste a achar que eu estou na cabeça do autor, o que ele está querendo dizer, o que está querendo transmitir; se é inovador, se é cínico, se é brincadeira. É tentar me colocar no lugar da escrita original”, detalha
    1/28/2023
    9:50
  • "Eu trabalho dentro da perspectiva da precariedade humana", diz Marcello Quintanilha, premiado em Angoulême
    O brasileiro Marcello Quintanilha é um dos principais autores de histórias em quadrinho na atualidade. Em 2022, ele foi laureado com o prestigioso Fauve D’Or, o prêmio concedido pelo Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême para o melhor álbum do ano. Em entrevista à RFI nesta na quinta-feira (26), durante o evento na França, Quintanilha falou sobre a construção de seus personagens, suas influências e sobre a cena dos quadrinhos no Brasil. Ana Carolina Peliz, enviada especial da RFI à Angoulême RFI: Em 2022 você ganhou o Fauve d’Or por "Escuta, formosa Márcia". Como foi o ano depois do prêmio? Marcello Quintanilha: Foi realmente incrível! É um sentimento muito positivo, porque minhas histórias são feitas sempre dentro da perspectiva da cultura brasileira. Minhas referências sempre vêm do Brasil, daquilo que me constituiu como pessoa. Então, quando você recebe um prêmio como o de Angoulême, que é o principal prêmio de quadrinhos na Europa, é fantástico, porque isso pressupõe que não necessariamente as pessoas precisam estar familiarizadas com a cultura brasileira ou com a sociedade brasileira para se identificar com personagens como os meus. Eu acho que meus personagens têm uma existência muito mais humana, num sentido muito mais universal que somente dentro da perspectiva brasileira.  No álbum "Escuta, formosa Márcia", você conta a história de uma mãe moradora de uma favela, cuja filha se envolve com o crime organizado. Como é entrar na pele de pessoas tão diferentes de você e falar com legitimidade de problemas que não são seus?   Eu não faço a menor ideia, porque eu nunca trabalho dentro da perspectiva do gênero. Eu nunca penso se os meus personagens vão ser mulheres, se vão ser homens. As personagens se impõem por elas mesmas. Eu não sei o que é o universo feminino, porque eu não sei o que é o universo masculino. Eu sempre tive muitas dificuldades com essas coisas, mas eu talvez tenha uma vaga ideia do que é o universo do ser humano. E sempre que eu trabalho os personagens, eu trabalho dentro da dentro da perspectiva da precariedade da condição humana, porque todos nós compartilhamos exatamente a mesma condição, a mesma precariedade. A perspectiva humana é muito, muito precária. Ninguém pode se considerar salvo em nenhum momento ou situação. O nosso futuro é sempre incerto. Nós nunca temos realmente o controle das nossas próprias vidas. Então, eu acho que por esse aspecto eu acabo falando com muitas pessoas, muito mais do que do que assumindo o características que podem ser determinadas pelas condições de gênero. Um ponto em comum nos seus quadrinhos é o olhar social que existe em todos eles. Como poderia não haver? Na verdade, acho que as questões sociais no Brasil determinam a forma como as pessoas se comportam. Isso tem impacto significativo na vida das pessoas. Os personagens estão condicionados a isso sempre que você está inserido nessa dimensão do trabalho, tal e como ele é processado no Brasil. Você inevitavelmente está ligado a essa perspectiva social, que te coloca dentro de uma situação em que você vai ser obrigado a tomar decisões que correspondem ao papel que você precisa exercer dentro de sua perspectiva de mundo. Você acha que as histórias em quadrinhos têm esse papel social? Especialmente as brasileiras? Todas as artes têm um papel social. Sobre o quadrinho brasileiro, eu acho que é simplesmente o resultado do desenvolvimento que o quadrinho está tendo no Brasil nos últimos anos. Ele tem se desenvolvido dentro dos critérios de proposições autorais, muito mais do que dentro dos critérios de uma indústria que absorva desenhistas ou roteiristas como profissionais. O quadrinho no Brasil está se desenvolvendo de uma forma muito mais artística e autoral. Provavelmente, isso faz com que os trabalhos acabem adquirindo uma relevância que vai além do mero entretenimento. Você acha que os quadrinhos têm um papel importante na popularização da literatura?  Eu não vejo a literatura como algo elitista. Nunca vi a literatura como algo elitista. Nem do ponto de vista do que está escrito, nem do ponto de vista das pessoas que a fizeram. Que os quadrinhos sejam uma porta de acesso à literatura, o contrário também é verdade: a literatura também pode ser uma porta de acesso aos quadrinhos.  Mas não foram só os quadrinhos que lhe influenciaram na sua construção como autor. Quais são suas outras influências?  O cinema. O neorrealismo italiano é uma referência sempre presente, a maneira que alguns diretores tinham de derrubar a parede entre realidade e ficção, como no caso de Rossellini, que era alguém que produzia imagens que ele gravava em segredo, por exemplo, da ocupação alemã na Itália, na época da Segunda Guerra Mundial, e introduzia essas imagens reais dentro de histórias ficcionais. É algo que é realmente incrível e fascinante. Muitas das minhas histórias estão pensadas para recriar a atmosfera de muitos desses filmes.  Por que você usou o universo das favelas na sua história?  Se tiramos a história da realidade das favelas e transcrevemos para o universo da classe média, a história seria exatamente a mesma. É porque eu me interesso muito pelo aspecto histórico desse tipo de comunidade. Elas são o resultado de um processo político que não contemplou a inclusão de todos os membros da sociedade brasileira dentro de todos os requisitos da cidadania. É um fato. Não fomos capazes de fazer isso. Precisamos ser capazes de fazer isso.  Este ano, houve uma grande polêmica em torno do quadrinista francês Bastien Vivès, que levou ao cancelamento da exposição sobre a obra do autor, devido a denúncias de banalização da pedofilia. Isso gerou reação entre as autoras francesas, que denunciaram o machismo no mundo das histórias em quadrinhos. Você acha que a questão da representatividade nas HQs poderia ser melhorada?  Isso está mudando. Mas, na verdade, não só os quadrinhos eram um universo muito masculino. A sociedade como um todo sempre é extremamente masculina no campo decisório. Os quadrinhos eram um resultado de uma sociedade que se constituiu assim. Mas isso está com os dias contados, não somente no campo dos quadrinhos. A sociedade como um todo está se abrindo de uma forma que eu considero irreversível. Toda essa coisa do patriarcado e tudo isso não vai perdurar para sempre. As pessoas, cada vez mais, vão tomando consciência da importância das suas escolhas e daquilo que elas querem para suas próprias vidas. É um movimento inexorável da humanidade.
    1/27/2023
    6:08

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